A Volta dos Folhetins‏ De: Marco Polo Haickel

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Agência CultPress

A Revista Cena traz na sua 2ª edição uma entrevista com o escritor M.P.Haickel, autor do livro "O Amor de Mariano", realizada pela jornalista Wêmily Batista.

Abaixo segue a entrevista, em anexo a versão digital da revista Cena.

Leia e participe da promoção realizada pela Editora Thesaurus.

Na compra do livro "O Amor de Mariano" pelo site da Editora você recebe o livro em casa, autografado.

Agência Literária CultPress

A volta dos folhetins

Por Wêmily Batista

Um gênero que, originado na França do séc. XIX, hoje é consumido por meio das novelas televisivas que ocupam os horários nobres.

O suspense, coração palpitante na mão e as indagações do que vai acontecer no capítulo seguinte são uma fórmula de sucesso que antes de reinar na televisão, migrou pelo rádio e teve origem nos jornais e periódicos.

Acreditem, houve um tempo que Joaquim Manuel de Macedo, Machado de Assis e José de Alencar escreviam para jornais todos os dias.

Um dos marcos do Romantismo brasileiro, A Moreninha, foi lançado inicialmente em formato folhetim pelo Jornal do Commercio, em 1844.

A reportagem da Revista Cena entrevistou Marco Polo Haickel, escritor e professor de literatura que resolveu resgatar o folhetim em sua forma mais clássica.

Depois de folhetins que chegaram a vender mais de 5 mil exemplares, ele lança O Amor de Mariano.

Uma coletânea de dez histórias, publicadas inicialmente em jornais, repletas de emoções e acompanhados das palavras mágicas “amanhã continua”.

Revista Cena: Quando começou sua relação com a literatura e poesia?

Desde criança já gostava de escrever minhas histórias, meus roteiros.

Na adolescência, vivia aqui em Brasília e era tudo muito diferente.

O clima da Guerra Fria obrigava todo mundo a dizer que era alguma coisa, de anarquista e trotskista.

Na época, eu era o anarquista e também o poeta da turma.

A gente lia o Manifesto Comunista em quadrinhos, íamos nas embaixadas pedindo livros e estávamos sempre pelos bares da cidade, cantando, recitando, fazendo pequenos números, como uma espécie de trovadores.

Essa efervescência cultural da época foi decisiva comigo, escrevia muitos poemas e até aprendi a tocar violão para conquistar garotas.

Cena: Por que a escolha do gênero folhetim?

A idéia de trabalhar com o folhetim surgiu quando eu estava na universidade.

Tive que ler Seara de Vento, de Manoel da Fonseca.

Além do enredo, da construção da história e das emoções desenfreadas, havia sempre um suspense ao final de cada capítulo.

Aprendi que todas essas eram características de uma literatura voltada para o consumo diário, que começou nos periódicos, chamada de folhetim.

Nos jornais, todo capítulo era acompanhado do desfecho “amanhã continua”, para que prendesse o leitor até o dia seguinte.

Aquilo me chamou atenção, já que nessa época trabalhava em jornal.

Então eu me perguntei por que essa formula havia desaparecido dos jornais.

Cena: E como mudou de admirador do gênero para escritor?

Eu já escrevia poesia e tinha algumas coisas publicadas na época.

Mas fiquei tão fascinado que resolvi me aventurar em escrever um folhetim para saber se essa arte ainda recebia algum feedback nos jornais.

Tive uma resposta incrível.

As pessoas acompanhavam cada episódio, opinavam, ficavam chateadas quando eu tinha que matar um personagem, dar um fim trágico para cada história.

Depois comecei ao final de cada capítulo, a publicar a história completa em edição de bolso e colocar à venda nas bancas.

A partir daí, vendíamos mil, dois mil, três mil exemplares dos livretos.

Já tive casos de folhetins que chegaram à casa de cinco mil exemplares.

Cena: E quem publicava esses livretos?

Eu mesmo, como nessa época trabalhava como diagramador no Jornal Pequeno, sabia como montar e editar o livro no computador.

E não pense que era como hoje, tão fácil.

Até pouco tempo atrás, em 2001 por aí, essa era uma função de poucos.

Então eu montava o livreto no computador, imprimia, tirava xerox, grampeava e tornava aquilo realidade.

Aliás, antes de lançar meus livros por uma editora mesmo, eu quem fazia todas as minhas publicações, do texto a impressão, sob o nome de Editora Vírus, que é a forma de ação direta que eu encontrei.

A Vírus é um sonho, uma tentativa, quase utopia pura.

Cena: Você trabalhou em jornais, com diversas funções, por muito tempo e também é escritor. O possível desaparecimento do jornalismo impresso tradicional abre espaço, na sua opinião, para um jornalismo mais literário e menos “engessado” e cheio de leads?

Bom, quando fui trabalhar em jornal foi também uma tentativa de me disciplinar a escrever.

O jornal diário é um verdadeiro celeiro de criatividade e você lida com o tempo.

Se não ficar pronto no tempo, não sai.

Isso te obriga a produzir, a deixar de lado aquelas bobeiras do tipo “tenho que estar inspirado para escrever”.

Minha passagem por jornal foi uma escola.

Aquela história quem não é visto não é lembrado.

O escritor tem poucos caminhos a seguir para fazer sua obra conhecida do grande público: ou vai fazer música ou trabalhar em jornal.

Àquela altura era mais viável escrever para jornal.

Mas isso são fases, tudo é fase.

Cena: E qual é a sua fase, atualmente?

Hoje estou mais em sala de aula e ando querendo me dedicar ao cinema.

Também estou preparando um livro de entrevistas com escritores, investigando o fazer literário e explorando novas perspectivas para o texto.

Confesso que me encontro, se podemos assim dizer, de resguardo.

Crítica – O Amor de Mariano

As dores da humanidade.

Os dez contos reunidos em O Amor de Mariano tem como características principais os conflitos, tragédias e amores que permeiam a vida comum.

O cliente que se apaixona pela prostituta, o marido traído e vários crimes passionais são alguns dos temas.

Falas jocosas, personagens estereotipados e uma clara crítica social são elementos que constroem uma narrativa do imaginário cultural brasileiro.

O sertanejo, a dona de casa submissa, o político corrupto, o bêbado.

Figuras, quase sempre, caricatas.

A atmosfera é simples, regional, mas os recursos de linguagem são cinematográficos, cheios de acontecimentos e palavras que dão o efeito especial.

O tom de realidade cria um paradoxo.

Os personagens são típicos demais, mas as tramas estão sujeitas a toda a sorte de abstrações súbitas.

O que não diminui o suspense ou a rápida dinâmica do livro, pelo contrário.

Bastidores da entrevista

Antes de entrevistar Marco Polo Haickel, o contatei algumas vezes por e-mail e telefone.

Muito educado, a forma com que ele respondia as conversas virtuais me dava uma impressão de certa seriedade.

Nada mais justo entre repórter e fonte.

Em meio a uma série de palestras e a organização do Congresso da Língua Portuguesa em Brasília, promovido pela Academia de Letras de Brasília, ele me disse que estava sem muito tempo disponível.

Propus que acompanhasse uma de suas palestras e o entrevistasse nos intervalos e momentos vagos.

Ele topou e marcamos o encontro às 17hs, do dia 5 de novembro, em uma faculdade em Taguatinga.

Eram 16hs quando tive que sair de casa. O fato de atravessar o engarrafamento colossal da via EPTG, em um dia que os termômetros marcavam 27ºC, em pleno horário de verão, quase me fizeram desistir da profissão e tomar um sorvete.

Felizmente, foi só um lapso.

Após 55 minutos de trânsito nada amigável, cheguei.

Só haviam passado três minutos do horário marcado e vi Haickel descendo a escada.

Vestindo uma blusa verde e calça cinza de uma espécie incomum de veludo, cheio de papéis e livros na mão, jeito de quem anda atrasado, arrastando uma pasta no ombro.

Ali, já estava convencida de que era mesmo um professor.

Apesar da impressão que tive no meio on-line, Marco Polo Haickel é uma simpatia, de cantar o tempo inteiro e se permitir dar risadas altas em público.

Nascido do Maranhão, fala quase sem sotaque.

Em meio a um litro de café e meio maço de cigarros, passei duas horas conversando com ele antes que exercesse seu ofício de palestrante.

Em meio ao clima de almoço de domingo, fiquei sabendo das suas histórias de professor, passando pela adolescência em Brasília e até o fato de que, como hobby, ele gosta de sair pelos bares de cidade vendendo seus livros de mão em mão.

Terminada a entrevista, com direito a ganhar uma versão pocket do O Amor De Mariano, rê-li o seu livro com outros olhos.

Juntando as semelhanças de falas e trejeitos de seus personagens com ele próprio.

Quem dera todas as entrevistas fluíssem bem tão facilmente.

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