Análise do discurso de lideranças neopentecostais para a tomada de poder na sociedade

Uma estrangeira no mundo

Em análise do discurso, Charaudeau (2008, p. 63) nos ensina que o sujeito analisante deve dar conta dos possíveis interpretativos que surgem ou se destacam no encontro dos pontos de vista do sujeito comunicante e do sujeito interpretante. Os possíveis interpretativos são as “representações linguageiras das experiências dos indivíduos que pertencem […]”[1] a grupos específicos ou comunidades humanas. Assim, as igrejas neopentecostais possuem seus próprios possíveis interpretativos.

Se no capítulo anterior analisou-se o discurso neopentecostal direcionado aos membros e visando a manutenção da estrutura eclesiástica, este capítulo dedica-se à análise do discurso de lideranças neopentecostais visando a incursão no ambiente político.

aad1Malafaia – Pela primeira vez na história do nosso país, na história republicana, a terceira maior autoridade do país, o presidente da Câmara dos Deputados é um irmão nosso. Eu vou pedir para ele dar uma saudação: o deputado Eduardo Cunha.

Eduardo Cunha – Paz do Senhor, meus amados, Pastor Silas Malafaia. Deus me colocou lá. Eu sempre digo, Silas: se Deus me colocou lá, ele saberá sempre honrar o trabalho que ele fez. Todos conhecem o que eu penso, qual é minha posição e aquilo que a gente vai tentar sempre fazer valer. Muito obrigado, que Deus abençoe todos vocês porque, afinal de contas, o nosso povo merece respeito! (Pr. Silas Malafaia e Eduardo Cunha – YOUTUBE)

Este discurso foi proferido no palco da Marcha para Jesus no Rio de Janeiro (2015). Tal evento reuniu milhares de fiéis, atentos aos shows de música gospel e aos líderes eclesiásticos e políticos convidados[2].

O Pastor Silas Malafaia introduz o Deputado Federal Eduardo Cunha à plateia, enaltecendo o fato dele ser o Presidente da Câmara dos Deputados e um irmão de fé. Pela primeira vez, segundo Malafaia, um evangélico consegue alcançar tal cargo, algo que vem carimbar a doutrina de vitórias e de conquistas seguida pelas igrejas neopentecostais.

O Deputado Eduardo Cunha fala a seguir. Com voz macia e boa dicção, possivelmente aprendida durante seus tempos como locutor na Rádio Melodia FM[3], Cunha saúda os fiéis e declara: “Deus me colocou lá”, atestando que sua posição política ocorreu pela vontade divina e, por isso, sem direito a críticas. Afinal, se Deus o colocou na presidência da Câmara, não cabe a nenhum fiel contestar tal fato, mesmo face às maiores arbitrariedades (vide, no capítulo 2, que os líderes neopentecostais amaldiçoam a quem se volte contra um “ungido”, mesmo diante de ações criminosas).

De forma demagógica, Cunha afirma ser próximo dos eleitores. Afinal, todos o conheceriam e ao seu modo de pensar e agir. Porém, nos últimos tempos o Judiciário e as mídias têm trazido uma nova face de Eduardo Cunha: a de uma pessoa agressiva, ardilosa e corrupta[4].

Cunha termina seu discurso com o bordão de seu programa de rádio: “o nosso povo merece respeito”, sua marca registrada no Estado do Rio de Janeiro.

aad2Pela primeira vez, pela primeira vez, a Marcha pra Jesus pela primeira vez tem o apoio – tudo o que vocês estão vendo aqui – da Prefeitura do Rio de Janeiro. Eu vou chamar duas autoridades pra gente orar. Eles não vão aqui falar nada, nós é que vamos falar com Deus pela vida deles. Eu vou convidar duas autoridades, o prefeito da cidade Eduardo Paes e o senador Lindbergh Farias. E nós temos aqui vários deputados e nós vamos – quero convidar os deputados federais e estaduais Bráulio, Samuel, Felipe. Estenda a sua mão aqui, por favor, estenda a sua mão. Meu irmão, na hora de votar você vota em quem você quer. Na hora de orar – quem aqui é povo de Deus? – você tá vendo, prefeito, tá vendo, Lindbergh, o povo de Deus é educado, o povo de Deus respeita a autoridade. E eu queria que vocês estendessem as mãos por favor, estenda as mãos. Em nome de Jesus, amém! Deus dê misericórdia, obrigado pelo seu apoio, Deus abençoe. (Pr. Silas Malafaia, Eduardo Paes e Lindbergh Farias – YOUTUBE)

Na Marcha para Jesus no Rio de Janeiro (2012) vê-se o Pastor Silas Malafaia com outros políticos no palco principal. Desta vez, o Prefeito Eduardo Paes (que concorria à reeleição) e o Senador Lindbergh Farias, além de deputados estaduais e federais aliançados com o pastor neopentecostal.

Antes de apresentá-los, Malafaia esclarece a plateia de que os custos daquele evento tinham o apoio da Prefeitura do Rio de Janeiro. Nesse caso, apoio significa também auxílio financeiro. Logo em seguida, Malafaia convida os dois políticos ao palco (um deles concorrendo à reeleição meses depois) sob a justificativa de que o público ali presente iria “orar” por eles.

Uma coisa a observar é que, no discurso evangélico, é raro o líder dizer claramente aos fiéis que devem votar no candidato X ou Y. A indução ocorre com outras palavras: “orar” pelo candidato que está no púlpito ou palco. Isso ocorre para tirar do discurso o peso de manipulação dos votos e será visto nos discursos a seguir. E, embora implícita, a mensagem é compreendida pelos fiéis, que costumam obedecer às instruções do “representante de Deus”.

Orlandi (2009, p. 82) lembra que, no decorrer dos discursos, há uma série de não-ditos que também possuem significado. Assim, embora não se solicite abertamente o voto, há um “não-dito” que o subentende.

Neste discurso não foi diferente. Malafaia diz que não dará a palavra aos políticos, na tentativa de desconstruir possíveis críticas. Apenas, de forma aparentemente cristã, “orará” por eles. O interessante é que só sobem ao púlpito os candidatos agradáveis aos líderes religiosos. Os demais não precisam de oração.

Além de “receber oração”, políticos sobem aos palcos e púlpitos evangélicos para, de forma subentendida, visualizar o rebanho. Do alto, em posição de destaque na congregação, é possível para o líder eclesiástico mostrar ao político a quantidade de “ovelhas” sob sua responsabilidade, muitas das quais acatarão suas instruções por medo de se negar a cumprir uma ordem vinda do próprio Deus.

aad3Narrador – Geraldo Alckmin, governador de São Paulo, assinou a lei 729/2015, que institui o Dia da Marcha para Jesus, de autoria do deputado e pastor da Igreja Quadrangular Carlos César. Estiveram presentes no Palácio dos Bandeirantes, sede do Governo, lideranças de diversas denominações como o Apóstolo Estevam Hernandes, Bispa Sônia Hernandes, Deputado Marcelo Aguiar, Deputado Celso Nascimento, Pastor Rinaldi Digilio, entre muitos outros. O Apóstolo Estevam Hernandes, líder da marcha no Brasil, falou da transformação da cidade de São Paulo através da Marcha pra Jesus.

Estevam Hernandes – Então eu creio que realmente é um diferencial nós podermos levar essa mensagem de vida, de paz e principalmente aquilo que a palavra fala, que é nós destronarmos principados e potestades. Assim como, durante todos esses vinte e três anos, nós observamos mudanças profundas no ambiente espiritual do Brasil, e eu creio que na França e em todos os países aonde a gente marcha pra Jesus isso efetivamente deva acontecer.

[…] Geraldo Alckmin – E com esta nova lei, o Dia da Marcha para Jesus vai para Corpus Christi, que é uma das maiores datas do cristianismo. E de outro lado, sendo feriado, facilita também para mais pessoas poderem ir para a marcha. Então isso vai fazer com que a marcha possa crescer ainda mais, com todos os seus bons frutos no nosso cotidiano, fortalecendo a família, trazendo a paz, trazendo bons valores e também o ponto de vista espiritual na vida de cada pessoa.

[…] Sônia Hernandes – A bancada evangélica se mobilizou. Hoje é um dia de muitas atividades aqui dentro da Assembleia, mas a bancada toda estava aqui. Glória a Deus, eu preciso falar isso para que você saiba que Jesus nos une. […] (Geraldo Alckmin, Apóstolo Estevam Hernandes e Bispa Sônia Hernandes – YOUTUBE)

Eis um dos motivos para o empenho das igrejas neopentecostais na eleição de políticos: que eles venham a agir em prol dos evangélicos e, principalmente, dos seus líderes. Ao instituir o feriado católico de Corpus Christi como Dia da Marcha para Jesus, o Governador Geraldo Alckmin fez um afago ao casal Hernandes (Igreja Renascer em Cristo), pois transferiu, pelo menos na capital, o feriado da Igreja Católica para os evangélicos.

O Apóstolo Estevam Hernandes, em seu discurso, destacou o aspecto espiritual e beligerante da existência da marcha. Marcha, em si, denota um tipo de andar próprio de combatentes. Aliado a isso, Hernandes remete à luta entre o bem e o mal, entre os evangélicos e os principados e potestades que dominariam a cidade. Para Hernandes, as batalhas têm sido vencidas pelos evangélicos através da marcha, uma vez que ele enxerga mudanças (de forma subentendida, para melhor) na cidade de São Paulo.

Já a Bispa Sônia Hernandes esclarece que as coisas de Deus são mais importantes do que qualquer outra coisa, entendendo como “coisa de Deus” qualquer assunto relativo ao mundo evangélico. Assim, embora havendo muitas outras atividades na Assembleia naquele dia, a chamada “bancada evangélica” preferiu se unir para a sanção de uma data comemorativa.


aad4[…] Gilberto Kassab – Boa noite a todas, a todos. Eu quero cumprimentar a cada um de vocês aqui presentes e o fato cumprimentando nosso querido Apóstolo Agenor Duque e a Bispa Ingrid. E dizer da alegria de estar aqui acompanhado do Deputado Jorge Tadeu e da nossa vereadora, uma companheira [inteligível]. E dizer pra vocês que a minha presença aqui nesta noite acompanhando, se Deus permitir, o nosso futuro prefeito José Serra, que tá chegando, é apenas pra trazer a vocês o nosso reconhecimento, nosso agradecimento da cidade de São Paulo a todas as ações aqui realizadas, principalmente no campo social, no campo da solidariedade, trazendo o abraço ao apóstolo, à bispa, trazendo o pedido que faço nesse momento de que vocês possam orar pelo prefeito, orar pela cidade. Pedi essas orações, apóstolo, porque é o caminho da certeza de que podemos ter uma cidade melhor, um Brasil melhor, com mais liberdade, com mais igualdade social, com mais justiça. […]

Agenor Duque – […] Eu quero te pedir uma coisa, agora é eu que tô falando, posso ou não posso? Você vai [inteligível] vinte pessoas da sua rua, da sua comunidade, da sua vila, daqui, de onde você conhece, e você vai dizer assim: “olha, a Sandra [Tadeu] já é vereadora e com fé em Deus ela vai se reeleger”. Fala um glória a Deus. Vamos fechar com a senhora essa aliança. Eu fiz uma pesquisa pela vida da Sandra e também do Jorge Tadeu, seu esposo, deputado federal, e a vida deles é limpa, pura e são servos de Deus. […]

José Serra – […] Eu queria aqui é combinar uma parceria. Eu sei que você [Agenor Duque] tem uma entidade, uma casa: Rei das Ruas, vocês tem uma obra social [inteligível] e eu queria propor essa parceria, e nós trabalharemos juntos. Agora, [inteligível] aqui não foi apenas conhecer e estar com vocês. Foi para fazer um pedido: que vocês orem por mim […]. Eu preciso de sua oração para dar mais forças a mim e à Sandra. Muito obrigado, a paz do Senhor. (Gilberto Kassab, José Serra e Apóstolo Agenor Duque – YOUTUBE)

Neste discurso, novamente vê-se a expressão “orar” pelo candidato, significando votar nele nas próximas eleições. O então Prefeito Gilberto Kassab se esforça para adotar o linguajar evangélico em seu discurso, tencionando parecer simpático aos fiéis.

Logo depois, o Apóstolo Agenor Duque pega a palavra e de forma bastante clara incita os fiéis a não apenas votar, mas também a conquistar novos vinte votos cada para a reeleição da Vereadora Sandra Tadeu, tida pelo apóstolo como uma pessoa idônea, além de serva de Deus. Fala em fechar uma aliança com a vereadora, o que implicitamente sugere uma troca de favores (especialmente em se tratando do universo neopentecostal, onde é lícito fazer negócios ou “alianças” até mesmo com o Sagrado). Assim, Duque a ajuda, com a força dos seus fiéis, na reeleição, e Sandra Tadeu o ajuda quando eventualmente solicitada.

E enfim chega o candidato a prefeito José Serra, propondo com Duque uma “parceria” (termo menos espiritual que “aliança”, porém contendo o mesmo significado) na manutenção da instituição social mantida pela IAPTD. E o pedido indefectível: “que vocês orem por mim”. Ou seja, “direcionem a mim os seus votos”.

aad5Ou você vai fazer como Judas, ou vai ser com a gente. Ou você vai entregar a gente na mão deles. Em nome de Jesus, eu peço para você uma coisa: me dê o teu voto. Quando você for votar no [Marcelo] Crivella, você está votando dez, você está votando na gente. Você pede a nossa ajuda, eu já te ajudei muito. Eu vou te ajudar agora, mas eu te peço ajuda no domingo. Eles estão certos de que o Crivella não vai para o segundo turno, mas a gente vai dar uma resposta domingo agora. Mas não faça como uma obreira nossa, que aqui dentro da igreja deu santinho de outro candidato. Sabe por quê? Porque alguma coisa ela tá ganhando. Ela tá atrás de trinta moedas de prata. Quem aqui eu posso contar? Mas é só o seu? É você e mais quantos? Já conseguiu quantos? O bispozão falou comigo antes de ir para o Grajaú. Falou assim: “Daniel, fala pra esse povo do desmanche, que eu conto com eles domingo agora. Vem cá, me dá um abraço. Eu sou o candidato, é isso. Olhe pra mim, a obra de Deus vai ganhar. E no ano que vem eu vou estar no programa do desmanche!” (Pastor da IURD – YOUTUBE)

Na IURD não costuma haver rodeios. Assim, o pastor Daniel, durante um culto, pede claramente que os ouvintes votem no Bispo Marcelo Crivella, sobrinho do Bispo Edir Macedo. Note que isso é possível, pois os cultos não são todos filmados. No discurso em questão, a gravação ficou a cargo de um componente da plateia.

O pastor começa exigindo um posicionamento do fiel: ou cumpre a instrução, ou se compare ao personagem bíblico Judas (aquele que traiu a Jesus). E em nome de Jesus é feito o pedido: o voto para Crivella, que é comparado a um voto para a própria instituição eclesiástica, e por isso a traição se configuraria mais grave.

Para justificar o pedido, o pastor apela para o toma-lá-dá-cá: ele já ajudou os ouvintes (talvez orando, dando conselhos) e é a hora da plateia retribuir. Nas igrejas neopentecostais, tudo tem um preço, ao ponto de uma obreira que estava dando “santinho” de outro candidato ser considerada vendida aos opositores da IURD, não se levando em consideração que o motivo poderia ser simplesmente ideológico.

O pastor não se contenta em direcionar os votos dos fiéis. Em certo momento, pergunta para os ouvintes com quem ele pode contar. Subentende-se que os fiéis se levantam ou levantam as mãos, expondo assim aos demais seu comprometimento com o voto no Crivella. É uma forma de intimidação, pois ao ver muitos se levantarem, os demais podem se sentir temerosos e assim, também seguir a multidão. E como se trata de um ambiente sagrado, torna-se difícil para o fiel desfazer posteriormente seu voto.

A última cartada é a menção ao “bispozão”, possivelmente o Bispo Edir Macedo, que espera o voto dos fiéis a seu sobrinho como se fosse a si mesmo. E quem contrariaria a palavra de um “representante de Deus”?

aad6Nós tínhamos dois candidatos: Lula e Collor. O Lula já tinha declarado que ele, eleito presidente, mandaria fechar a Igreja Universal. Ele declarou isso. Ele fez essa declaração: iria fechar a Igreja Universal. Eu não vou ser auto demolidor de mim mesmo. E houve promessas da parte do Collor de ajudar a igreja. O Collor disse eu iria ajudar a igreja. Eu estive com ele nesse momento. Eu tenho um retrato ao lado dele, inclusive. Hoje eu escondo esse retrato. Mas ele iria ajudar a igreja, dar apoio, etc. […] Nós estávamos comprando a TV Record. Repare se por acaso você compra, depende da autorização do presidente. A concessão de uma rede de televisão, de uma emissora, depende da aprovação do presidente. Se você tem um presidente dizendo para você “vou te apoiar”, você apoia o cara. Por quê? É uma questão de praticidade. Eu não vou apoiar meu inimigo. Vou apoiar aquele que se diz meu amigo. […] Roberto Marinho se insurgiu, os Mesquitas, do Estadão, se insurgiram, o Frias começou, depois esfriou, Brizola e outras coisas mais, todos contra o Bispo Macedo. Então o que aconteceu com o Collor? Ele se retraiu. E mandou um recado para o Bispo Macedo que não iria atendê-lo porque não queria se queimar junto aos meios de comunicação de massa. E o que aconteceu com ele? Se queimou. Ele foi contra um ungido de Deus[…] [próximo ao impeachment] O bispo veio dos EUA orar com ele na casa da Dinda. Passou três horas com ele. Orou e ele chorava copiosamente. Chorou baldes de lágrimas. Mas ali não adiantava mais. (DE VELASCO apud MARIANO, 2014, p. 93)

O Pastor Paulo de Velasco revelou, neste discurso, a estratégia da IURD e de muitas igrejas neopentecostais. Embora, para os fiéis, a escolha de um candidato a cargo político ocorra por intervenção divina, na realidade a escolha passa simplesmente pelo jogo de interesses.

Em 1989, conforme o discurso de De Velasco, o candidato Lula foi preterido por ter declarado, segundo o pastor, que fecharia a IURD, enquanto que Collor ofereceu apoio. Anos depois, vê-se a mesma IURD se aliando ao Lula e seu Partido dos Trabalhadores[5], demonstrando que as circunstâncias falam mais alto do que a espiritualidade.

De Velasco expõe, de forma bastante clara, como funciona o jogo político-religioso. Porém, embora toda a negociação se dê no âmbito terreno, as consequências são relegadas ao âmbito celestial. Assim, o então Presidente Fernando Collor teria amargado o impeachment não por sua atuação durante o mandato, mas por ter se voltado contra um “ungido do Senhor”, no caso o Bispo Edir Macedo.

Nas igrejas neopentecostais, os fins justificam os meios.

aad7Diante de três centenas de pastores reunidos no Hotel Caesar Park, São Paulo, dia 20 de agosto de 1994, Sônia Hernandes, com frases do tipo “a Palavra de Deus nos fala que quando um servo de Deus assume o comando, todo o povo é abençoado”, conclamou os presentes a apoiar a candidatura de Quércia à Presidência da República, mesmo que tivessem objeções quanto a sua idoneidade e competência, porque sua vice, Íris Resende, era evangélica de primeira hora. (MARIANO, 2014, p. 144)

Numa reunião de pastores, a Bispa Sônia Hernandes (Renascer em Cristo) tenta influenciar os presentes a votar (e também suas respectivas congregações) no candidato à presidência Quércia. Embora não sendo uma unanimidade em termos de idoneidade e competência, mesmo assim o voto em Quércia é recomendado, afinal sua vice, Íris Resende, era evangélica.

Para convencer os ouvintes, Hernandes espiritualiza o discurso. Embora vice, mas na chapa havia alguém da mesma profissão de fé, através de quem Deus agiria em prol da nação.

O discurso proferido deu resultado, embora Quércia não tenha sido eleito. Segundo Mariano (2014, p. 144), o candidato obteve 5,1% (cinco vírgula um por cento) dos votos na população em geral, enquanto que, entre os evangélicos, alcançou 8,3% (oito vírgula três por cento).

aad8Quero dar uma palavra, mais um testemunho, testemunho por ele autorizado em relação ao Deputado Eduardo Cunha. É absolutamente verdadeiro tudo aquilo que ele disse, e por isso que eu disse que suas palavras são críveis, são acreditáveis. E eu tenho o Eduardo Cunha como um auxílio extraordinário na Câmara Federal. Ninguém desconhece, como o Bispo Manuel Ferreira salientou, as suas qualidades. Se você quiser dar uma tarefa das mais complicadas para o Deputado Eduardo Cunha, ele as simplifica, porque ele trabalha muito. Porque certa e seguramente também, quando ele se manifesta, também está presente a sua fé, e a fé é que mobiliza as pessoas. Então, as tarefas difíceis eu entrego, entregava como entrego à fé do Deputado Eduardo Cunha, de modo que eu fico muito feliz em saber que toda a comunidade aqui acaba por apoiá-lo. E sabe-se que levará ao Congresso Nacional uma figura que adequadamente representa toda esta fé que emana desta igreja e desta assembleia. (Vice-Presidente da República Michel Temer – YOUTUBE)

O Vice-Presidente da República Michel Temer estava em meio ao processo deimpeachment da Presidente Dilma Rousseff[6] quando proferiu este discurso, dirigido a lideranças evangélicas capitaneadas pelo Bispo Manuel Ferreira, da Assembleia de Deus Ministério Madureira. A exemplo da ADVEC, essa Assembleia de Deus deixou suas origens pentecostais e enveredou pelo neopentecostalismo, adotando doutrinas como a da Teologia da Prosperidade. Entre os membros ilustres do Ministério Madureira está Deputado Eduardo Cunha[7], Presidente da Câmara dos Deputados e envolvido em uma série de denúncias de corrupção[8].

O locutor precisa adequar seu discurso à plateia. Assim, Temer se utiliza de termos familiares aos evangélicos para se dirigir aos líderes, como “testemunho” e “fé”.

O testemunho que Michel Temer quer trazer é o da capacidade de Eduardo Cunha. Segundo o político, Cunha é alguém bastante trabalhador e que consegue resolver os problemas que lhe são apresentados. Porém, como se dirige a religiosos, Temer lembra que sua capacidade advém do Alto, do divino, da fé que Eduardo Cunha possui. E como essa fé é a causa dos sucessos do deputado, é também a prova de que suas ações são ratificadas pelo próprio Deus, sendo assim indiscutíveis.

O mais intrigante é que Michel Temer coloca com todas as letras que os líderes evangélicos ali presentes estão apoiando Eduardo Cunha, apesar de todas as denúncias que recaem sobre sua pessoa. Sobre isso, nada é citado. Afinal, a suposta fé de Cunha o redime de todos os possíveis pecados terrenos, inclusive as acusações de corrupção e de existência de contas não declaradas no exterior com dinheiro de propina.

É sabido que os neopentecostais querem sempre estar próximos ao Governo, e para isso se empenham tanto na eleição de políticos que lhes sejam favoráveis. Assim, quando Dilma Rousseff estava à frente das pesquisas pré-eleitorais, muitos grupos neopentecostais (incluindo a igreja Assembleia de Deus Ministério Madureira) lhe estenderam apoio[9]. Porém, quando a Presidente está sendo deposta, esses mesmos líderes deixam o barco e se ancoram nos que lhe substituirão no poder.

Além do Bispo Manuel Ferreira, o Pastor Silas Malafaia também “orou” por Michel Temer[10]. E certamente, seus fiéis seguidores também “orarão” por quem quer que lhes seja indicado, afinal é a vontade de Deus (pelo menos, por enquanto).

O final do discurso de Michel Temer é intrigante, pois bastante ambíguo: “[…] de modo que eu fico muito feliz em saber que toda a comunidade aqui acaba por apoiá-lo. E sabe-se que levará ao Congresso Nacional uma figura que adequadamente representa toda esta fé que emana desta igreja e desta assembleia”. Cunha representaria a fé dos neopentecostais no que tange às qualidades que lhe foram inferidas no discurso ou aos defeitos que foram omitidos? As duas hipóteses são consideráveis, porém acredita-se que Temer, nesse caso, usou de grande sarcasmo e ironia para cutucar os presentes.

 

[1][1] CHARAUDEAU, Patrick. Linguagem e discurso: modos de organização. São Paulo: Editora Contexto, 2008, p. 63.

[2] PORTAL G1. Marcha para Jesus reúne multidão no centro do Rio. Disponível em: <http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2015/05/marcha-para-jesus-reune-multidao-no-centro-do-rio.html>. Acesso em: 24 Abr.2016.

[3] O GLOBO. Para enfrentar denúncia, Cunha se ampara em grupo construído entre evangélicos. Disponível em: < http://oglobo.globo.com/brasil/para-enfrentar-denuncia-cunha-se-ampara-em-grupo-construido-entre-evangelicos-17276421>. Acesso em: 24 Abr.2016.

[4] Folha de São Paulo. Janot diz ao STF que Cunha é agressivo e pede abertura de ação. Disponível em: < http://www1.folha.uol.com.br/poder/2016/02/1740043-janot-diz-ao-stf-que-cunha-e-agressivo-e-pede-abertura-de-acao.shtml>. Acesso em: 24 Abr.2016.

[5] VEJA. Dilma recebe o apoio do “bispo” Macedo, que é favorável ao aborto. Disponível em: < http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/dilma-recebe-o-apoio-do-bispo-macedo-que-e-favoravel-ao-aborto/>. Acesso em: 24 Abr. 2016.

[6] G1 Política. Comissão do Senado ouve autores do pedido de impeachment de Dilma. Disponível em: < http://g1.globo.com/politica/processo-de-impeachment-de-dilma/noticia/2016/04/comissao-do-senado-ouve-autores-do-pedido-de-impeachment-de-dilma.html>. Acesso em: 28 Abr.2016.

[7] Estadão. Cunha usou Assembleia de Deus para receber propina, diz Janot. Disponível em: < http://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/janot-acusa-cunha-de-usar-assembleia-de-deus-para-receber-propina/>. Acesso em: 28 Abr.2016.

[8] Carta Capital. Réu por corrupção, Cunha vê pressão aumentar. Disponível em: <http://www.cartacapital.com.br/politica/reu-por-corrupcao-cunha-ve-pressao-aumentar>. Acesso em: 28 Abr.2016.

[9] Folha de São Paulo. Painel. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/183825-painel.shtml>. Acesso em: 28 Abr.2016.

[10] O Povo Online. Temer recebe bênção de Silas Malafaia. Disponível em: <http://www.opovo.com.br/app/politica/2016/04/27/noticiaspoliticas,3608365/temer-recebe-bencao-de-silas-malafaia.shtml>. Acesso em: 28 Abr.2016.

https://estrangeira.wordpress.com/2016/07/23/o-discurso-da-fe-analise-do-discurso-de-liderancas-de-igrejas-neopentecostais-parte-2/

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s