RBS e as origens do ódio

Grupo RBS Grupos Mafiomidiáticos RBS RS — Gilmar Crestani

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A seguir uma pequena pedaço da longa biografia da RBS à serviço da plutocracia e contra a esquerda, registrado em maio de 2002 na Revista Imprensa, que de esquerdista não tem nada. De lá para cá a RBS, filiada da Rede Globo, só aumentou seus vasos capilares. Tirando Olívio Dutra e Tarso Genro, a RBS conseguiu capturar todo o espectro político do RS. Noves fora o PMDB, teúdo e manteúdo da RBS, também conseguiu eleger dois senadores extraídos de suas fileiras: Ana Amélia Lemos (do PP gaúcho), e Lasier Martins(do PDT gaúcho).

Portanto, quem acha que a Rede Globo é a fonte de todo ódio aos movimentos sociais é porque não conhece sua fiel escudeira no pampas. Se a Rede Globo está no Panama Papers, a RBS, juntamente com seu totem, Gerdau, está na Operação Zelotes.

Um editor declarou que o Grupo Clarín fazia “jornalismo de guerra” contra o casal Kirchner. Muito antes disso a RBS já fazia jornalismo de guerra contra o PT e a favor de seus asseclas. Ou alguém já viu a RBS criminalizar o PMDB por abrigar gente como MichelTemer, Eduardo CUnha, Romero Jucá, José Sarney, Eliseu Rima Rica, José Ivo Sartori e Sebastião Mello. Não, todo seu ódio é dirigido e concentrado contra seus adversários ideológicos.  Seus finanCIAdores ideológicos estão com ela no CARF, mas ninguém fica sabendo, porque a RBS detém um quase monopólio (80%) do mercado de informações no RS.

Quem primeiro foi denunciada, pelo Diógenes de Oliveira, de lavagem de dinheiro, nas Ilhas Cayman, foi a RBS. Os que vieram depois, como José Maria Marin, Ricardo Teixeirae toda trupe da Lista Falciani do HSBC apenas seguiram as pegadas da RBS.

Os catarinenses já conseguiram expulsar a família do estuprador de Florianópolis, agora falta os gaúchos!

“Rio Grande em pé de guerra”, copyright Revista Imprensa, 05/02 – Pedro Paulo Venceslau

“Essa relação, que nas outras regiões do Brasil varia entre o conflito total e a subserviência financeira e política, no sul é marcada por um forte componente ideológico, típico dos pampas, onde toda discussão envolve paixão. Ou se está de um lado, ou de outro.

Nesse caso, de um lado está a RBS (Rede Brasil Sul), um império de comunicação formado por 60 emissoras de rádio e televisão e jornais, que aglutinam 86% dos leitores da grande Porto Alegre. Do outro, o PT (Partido dos Trabalhadores), que dirige a maior parte das prefeituras do Estado, incluindo Porto Alegre e Pelotas, as mais ricas cidades gaúchas, além, é claro, do governo estadual e da TV educativa do estado, a TVE que, segundo seu colega de partido e prefeito de Porto Alegre, Tarso Genro, é operada de forma ‘stalinista’ por Olívio Dutra.

Redação do jornal Zero Hora: apesar da guerra contra o governo, petistas são maioria

A RBS está falindo. O Grupo, que enviaria dinheiro para o exterior e seria sonegador de impostos, estaria prestes a quebrar – dispõe de R$ 0,38 de recursos próprios para pagar cada R$ 1,00 que deve. Sua situação é de liquidez geral. Ver-dade ou munição de guerra? Essas informações circularam em dezembro do ano passado em um dossiê de fazer inveja ao melhor dos arapongas da ABIN (Agência Brasileira de Informação). Via Internet, o calhamaço aterrissou na mesa dos principais políticos do Rio Grande do Sul.

Especialmente dos governistas. São nove páginas de verborragia, misturada com dados supostamente ‘inquestionáveis’ sobre a situação financeira da empresa. Ou seja, um banquete para o inimigo número 1 da Globo gaúcha, o Palácio Piratini, sede governo do estado. Foi lá que a reportagem de IMPRENSA, pouco depois de desembarcar em Porto Alegre, recebeu uma cópia do material.

Ao contrário dos dossiês secretos que correm pelos bastidores da corrida presidencial, o texto veio assinado e com o número do telefone celular do autor da matéria, ao lado do título.

Durante mais de um mês, o jornalista Nivaldo Manzano, ex-Gazeta Mercantil e colaborador da revista Caros Amigos, notoriamente simpática ao PT, se internou em Porto Alegre. Escutou supostos ex-executivos do grupo, freqüentou a Junta Comercial e dissecou documentos ‘inques-tionáveis’. O repórter voltou para São Paulo achando que tinha uma bomba em mãos. O curioso é que durante o período em que circulou pela capital gaúcha, o jornalista se dizia enviado pela revista semanal Carta Capital. Não era. ‘A matéria foi encomendada por uma agência de notícias de São Paulo, que eu não posso revelar o nome. Eles disseram que havia interesse da Carta em publicar, desde que ela fosse submetida a uma leitura prévia. Não sei o que aconteceu, mas a redação achou melhor não publicar’, afirma o jornalista.

Manzano nega que tenha jogado o dossiê na rede. ‘Eu mandei a matéria para o editor. Inclusive meu telefone estava lá. Não sei como foi parar na Internet’. Que editor? Ninguém sabe. Assim que tomou conhecimento da história, Mino Carta, o editor da revista, se apressou em desmentir a história no editorial. ‘Aviso aos navegantes. Sites na Internet estão divulgando um artigo intitulado ´A verdade escondida´, sobre o Grupo RBS, assinado por Nivaldo Manzano, que teria sido publicado em Carta Capital.

Essa edição simplesmente não existe e o artigo em questão não foi publicado e não será em qualquer outra’. A redação de Carta também nega que esse artigo tenha sido negociado com alguma agência de notícias. Pudera. O dossiê de Manzano mais parece um discurso de palanque, repleto de juízos de valor do começo ao fim. Só para citar um exemplo: ‘…fiel a sua estratégia de amealhar fortuna mediante o aumento do poder de influir sobre sua audiência, o clã Sirotsky sempre preferiu mandar em quem manda…’. Mino Carta nem precisava ter desmentido.

Para decepção de Manzano, seu material não repercutiu na mídia. Sequer despertou interesse em alguma publicação brasileira. Nem mesmo a CarosAmigos, única publicação de esquerda notoriamente estruturada, ou ainda jornais institucionais partidários se arriscaram a acolher o material. Executivos da RBS suspeitam que o dossiê faça parte uma ação silenciosa e discreta do governo para atingir a empresa no mercado. Motivos para isso não faltam.

Julgamentos à parte, é curioso o fato de uma agência de notícias bancar a viagem de um profissional ao sul, sem ter certeza de que a matéria seria publicada. Uma coisa é certa: o texto de Manzano acabou funcionando como munição em uma guerra declarada entre o primeiro e o quarto poderes. Durante quinze dias, a reportagem de IMPRENSA se debruçou sobre o tenso relacionamento entre maior vitrine petista do Brasil, o Rio Grande do Sul, e a mais importante afiliada da Globo no país, a Rede Brasil Sul.

Guerra é guerra

Imagine a situação. Você é governador do estado, portanto comanda a Polícia Militar, que por sua vez tem a obrigação de manter a ordem. Eis que centenas de militantes do seu partido partem em marcha até o imenso relógio da Rede Globo, que marca quantos dias faltam para o aniversário de 500 anos do Brasil. A intenção é clara: destruí-lo. O aparato, apesar de ser um bem privado, está instalado em uma praça pública da cidade, que foi alugada pela Prefeitura, dirigida por um companheiro de partido. Chegando no local, os ativistas, que fazem parte da sua base política, não perdem tempo. Avançam sobre o relógio, jogam tinta, dão pauladas, chutes e pedradas. A Polícia Militar só espera um comando para enfrentar os manifestantes. Basta um telefonema. Se isso acontecer, a praça pode se transformar em um campo de batalha e seus companheiros – assim como seus soldados – podem sair feridos.

No dia 22 de abril do ano 2000, o ex-sindicalista, ex-prefeito de Porto Alegre e governador do Rio Grande do Sul, Olívio Dutra, viveu esse dilema. Ordenar ou não que a polícia entrasse em confronto com os militantes. Olívio optou pela vista grossa e, o símbolo da Globo, cravado em Porto Alegre, foi completamente destruído. No dia seguinte, como era de se esperar, a TV educativa do estado, que em última instância é pilotada pelo governador, minimizou o evento. Já a afiliada da Globo no Sul, a RBS (Rede Brasil Sul), usou toda sua estrutura de comunicação para repercutir e transformá-lo em um símbolo de intransigência, radicalismo e até fascismo por parte da militância petista e do governo. O jornal Zero Hora, carro chefe do jornalismo impresso da RBS, chegou a afirmar que secretários de estado participaram do quebra-quebra. Olívio sabia que ficaria mal com a opinião pública, e mesmo assim não se esforçou em impedir a realização do ato. Afinal, o Rio Grande do Sul vive uma guerra política, eleitoral e midiática.

E guerra é guerra.

De um lado está uma imensa máquina pública, pilotada por um partido de esquerda bem organizado, com ramificações rurais e sindicais. Essa máquina é composta pe-lo governo estadual e pelas principais prefeituras do Estado – incluindo a da capital. E conta com uma emissora pública de TV, a TVE, controlada, segundo facções do próprio PT, com mão de ferro pelo governador. Do outro, está um conglomerado de comunicação, dirigido por uma família politicamente liberal, mas conservadora: os Sirotsky, comandantes da afiliada da Globo, dos principais jornais do Sul do país e de 60 emissoras de rádio. Trata-se de um embate ancorado em três vertentes: ideologia, poder e dinheiro.

‘Não concordo com depredação, mas é compreensível que ela tenha ocorrido com o relógio da Globo. Afinal, a emissora tem um histórico de manipulação contra o PT’, disse para IMPRENSA Tarso Genro, prefeito de Porto Alegre e companheiro de Dutra. O quebra-quebra do relógio global não foi o primeiro nem o mais tenso embate a céu aberto entre o PT e os Sirostsky. Em julho de 1999, Dutra experimentava seus primeiros meses como governador do Rio Grande do Sul, quando uma multidão de ativistas ligados do PT partiu em passeata para a sede do jornal Zero Hora. Além das tradicionais bandeiras vermelhas da CUT, MST e PT, os militantes carregavam debaixo do braço uma infinidade de adesivos com o slogan: ‘RBS e Zero Hora mentem’. Ao chegar à sede do jornal, a multidão não perdeu tempo. Entupiu a fachada do prédio com os adesivos, cercou a portaria de entrada e hasteou uma bandeira vermelha do MST e outras duas da CUT, no mastro do jardim. Na redação do jornal, o clima ficou tenso. Sitiados e constrangidos, os jornalistas, em sua maioria simpatizantes do PT, não podiam fazer nada além de assistir ao ato pela janela. A resposta veio no dia seguinte, quando a editoria de política do jornal chamou os militantes de fascistas e incapazes de conviver com a democracia.

Começava assim o capítulo mais tenso dessa guerra que já dura doze anos. Nos últimos três, desde que o partido chegou ao governo do Estado, a artilharia de ambos os lados ficou mais pesada. Enquanto o governador e seu partido são acusados de perseguir jornalistas de oposição, orientar a PM a ignorar ou até participar de atos de vandalismo contra a RBS, além de usar dinheiro de bicheiros para montar a sede do partido, a RBS é apontada como responsável por uma sistemática campanha de difamação. É acusada, entre outras coisas, de lavagem de dinheiro no exterior e tráfico de influência.

Ódio antigo

O Grupo RBS e o PT começaram a se estranhar em 1988, quando o sindicalista Olívio Dutra protagonizou uma virada surpreendente, à semelhança de Luiza Erundina em São Paulo, e venceu as eleições municipais, contrariando todas as pesquisas de opinião que o colocavam em quarto lugar. Os favoritos eram o pedetista Vítor Faccione e o peemedebista José Fogaça. Em tempo: no pleito anterior, em 1982, o primeiro com eleições diretas depois do golpe militar, Olívio conseguiu parcos 55 mil votos.

A vitória petista na capital gaúcha levou ao poder um primeiro escalão mais radicalizado e intransigente que a cúpula do PT de Lula e Zé Dirceu da década passada – na época, socialistas assumidos. ‘Hoje nós fazemos a autocrítica daquela época. A gente tinha um impulso ideológico, doutrinário e programático muito forte, que já não temos hoje’, reconhece David Stival, atual presidente do PT do Rio Grande do Sul e um dos fundadores do partido no Estado.

Logo que assumiu a prefeitura, Dutra anunciou uma medida bombástica. O sistema municipal de transporte seria estatizado. Foi o suficiente para a opinião pública, que já via com muitas reservas a vitória da esquerda, partir para a ofensiva. ‘O PT atacou um pilar do capitalismo e isso deu margem para a imprensa conservadora ir para a ofensiva. Assim começou o clima de antagonismo. A RBS defende claramente o princípio do liberalismo’, explica o jornalista Norton Kapfel, chefe de reportagem da RBS TV, com 13 anos de casa no currículo. Apesar do efeito negativo na mídia, que surtiu a intervenção da prefeitura no sistema de transporte, Kapfel afirma que Porto Alegre tem hoje um dos melhores transportes coletivos do país.

Mesmo com a permanente tensão entre o PT e a imprensa gaúcha em geral, que atravessou os quatro anos do primeiro mandato municipal, o partido conseguiu eleger o sucessor de Dutra, Tarso Genro, o sucessor de Genro, Raul Pont e o sucessor de Pont, novamente Genro, o atual prefeito de Porto Alegre. A relação da mídia gaúcha com as administrações petistas foi se aprimorando ao longo das quatro gestões consecutivas. A exceção foi a RBS. ‘A relação do PT com outros veículos do estado, como o Grupo Caldas Jr, que publica o jornal Correio do Povo, o Jornal do Comércio e o Grupo Pampa, que faz O Sul é ótima. Só temos problemas com a RBS, que nos ataca sistematicamente’, afirma o petista Stival.

Efeito Dutra

Durante o processo eleitoral para o governo do estado em 1998, a guerra entre RBS e PT esteve no centro da campanha. Nos muros das cidades, nas camisetas dos militantes, nos gritos de guerra das passeatas e comícios, os slogans anti-RBS foram presença obrigatória.

O então governador Antônio Brito, que é jornalista e ex-repórter da RBS, começou a corrida disparado na frente, nas pesquisas de opinião. Tudo indicava que a reeleição seria uma bar-bada. Em segundo, estava o ex-prefeito Olívio Dutra.

Assim como na disputa anterior, o passado de Brito na RBS – ele foi repórter e editor da casa nos anos 70 – era um dos argumentos mais usados pelos ativistas do PT como prova ‘cabal’ da campanha que estaria sendo movida contra o partido. ‘O Brito é oriundo da RBS. É natural que a empresa tenha feito campanha para ele em 98 e faça esse ano de novo. Isso não sou eu que digo. Está na boca do povo’, afirma o militante Júlio César Stexer, filiado desde 84 ao PT, diante de uma tenda vermelha lotada de broches, camisetas e adesivos do partido, no centro de Porto Alegre. ‘Eu vendo mais de trinta adesivos destes por dia. Quer prova maior que essa?’, afirma Stexer, apontando para um exemplar do adesivo ‘RBS/Zero Hora mentem’.

Marcelo Rech, diretor do Zero Hora: ‘o PT patrulha’

As queixas não se restringem às bases. ‘A RBS age como um partido político aqui no sul. Eles são parciais. A posição anti-petista é transparente’, reclama a jornalista Vera Espolidoro, secretária de comunicação da prefeitura de Porto Alegre. Ela faz coro com seu chefe, o prefeito Tarso Genro, adversário de Dutra nas prévias do partido para a eleição estadual.

‘Em uma determinada parte da campanha, ficou nítida a preferência da RBS e o favorecimento à candidatura Brito. Pudera: a emissora está de acordo com o projeto neoliberal e tem uma visão caricata do partido’, diz Genro.

Entrada do Palácio Piratini, sede do governo gaúcho: QG de Dutra

No subsolo do Palácio, antiga Rádio da Legalidade segue funcionando A RBS, por sua vez, considera a tese petista uma teoria conspiratória. ‘O Brito trabalhou na RBS há muito tempo. Nunca existiu nenhum tipo de pressãopara apoiá-lo. Existe um patrulhamento ideológico muito grande por parte dos órgãos subservientes ao PT e por seus aparelhos políticos. Eles marcam em cima os jornais independentes e não aceitam críticas. O Zero Hora tem um padrão muito elevado de independência e credibilidade. Muita gente não entende isso’, responde o jornalista Marcelo Rech, diretor de redação do Zero Hora. O presidente da RBS, Nelson Sirotsky, por sua vez, acha que Brito tratava melhor os jornalistas do Grupo. Mas não por ser ex-funcionário da casa, e sim por ser um colega de profissão. ‘O ex-governador, por sua condição de jornalista, mantinha uma relação diferenciada com vários profissionais da RBS e também de outros veículos. Mas esse relacionamento não interferiu nas relações da RBS com o governo’, afirma.

Para entender a guerra eleitoral sem cair no campo da subjetividade e da paixão, basta fazer uma pequena pesquisa em cima do que foi exibido e publicado na época. Em seus editoriais, a posição do grupo RBS sempre foi abertamente contrária ao PT. No conteúdo jornalístico, entretanto, essa posição é bem mais discreta e pode ser interpretada de duas maneiras diferentes. Por um lado, a RBS diz que está cumprindo sua missão jornalística quando abre espaço para notícias sobre problemas na administração petista. Por outro, o PT afirma que a Rede Brasil Sul se deixa levar por factóides, potencializa denúncias, minimaliza os desmentidos e força a barra na edição de imagens.

O que é inegável , entretanto, é que entre os articulistas da Rede Brasil Sul predomina um forte sentimento anti-petista. E um generoso espaço é reservado diariamente a esses colunistas nos veículos do grupo. Coincidência ou não, o atual presidente da Assembléia Legislativa gaúcha, Sérgio Zambiasi, do PTB, um dos mais ardorosos opositores do PT no estado, é funcionário da casa. Ele apresenta um programa matinal na rádio Farroupilha e assina uma coluna diária no jornal Diário Gaúcho, ambos da RBS. Outro que é implacável com os petistas é o colunista José Barrionuevo, que assina a coluna política mais comentada de Porto Alegre, a Página 10, do Zero Hora. Barrio-nuevo, apesar de 30 anos de jornalismo político no currículo e de um passado de militância esquerdista na JUC (Juventude Universitária Católica), chegou a ser ameaçado de morte, em coro, por militantes do PT, durante a passeata que cercou a sede do jornal. ‘Não sou adestrado. O PT tem uma postura messiânica: ou tu crê, ou morre’, diz o jornalista. Entre informações, contra-informações e desmentidos, a corrida pelo governo chegou na reta final tecnicamente empatada. Brito esteve perto de vencer no primeiro turno, mas foi prejudicado por uma aliança entre o PT e o PDT, partido de Brizola, governador do Rio Grande em 1961 e que tem no Sul seu mais importante reduto.

Na véspera do pleito, a tensão entre RBS e PT atingiu seu ponto máximo. O Zero Hora foi obrigado a interromper a rodagem de sua edição dominical, que contava com uma pesquisa eleitoral do Ibope, depois que a Frente Popular, encabeçada por Olivío, emplacou um direito de resposta. A decisão favorável da Justiça Eleitoral se deu em função de um anúncio do PSDB, publicado dias antes na primeira página, em que Fernando Henrique aparecia pedindo votos para Antônio Brito. Milhares de exemplares que já haviam sido impressos sem o direito de resposta foram recolhidos por Oficiais de Justiça quepercorreram bancas em Porto Alegre, Pelotas e Santa Maria. A decisão deixou a cúpula da RBS enfurecida. No dia seguinte, na sessão de política, o jornal se defendeu. ‘Desde o regime militar, essa é a primeira vez que o Zero Hora sofre apreensão de exemplares’. Terminada a apuração, Olívio Dutra venceu por uma pequena margem de votos, contrariando, mais uma vez, as pesquisas de opinião, que davam ligeira vantagem para Brito.

Trincheira no subsolo

Com a vitória de Dutra, uma tropa jornalística de choque começou a se movimentar. No subsolo do Palácio Piratini, dois lances de escada abaixo da recepção, foi montado o quartel general de imprensa do governo. Uma verdadeira trincheira, onde vinte e cinco jornalistas acompanhados de mais algumas dezenas de funcionários assistem, diariamente, cada reportagem de TV, lêem linha por linha impressa nos jornais diários e ouvem todos os locutores de rádio. Nada que se fale sobre o governo deve passar desapercebido, especialmente se o comentário partir da RBS. Dutra, por sua vez, optou pela radicalização no trato com a mídia. Quem pegar pesado, responde na Justiça.

‘O governo adota uma prática não muito convencional em relação à imprensa. Diante das críticas, muitas vezes, opta por ações judiciais. O diretor de redação do Zero Hora, apenas para exemplificar, está sendo processado por um editorial crítico, mas respeitoso. Isso, para mim, é decorrente da infância política da nossa democracia’, reclama Nelson Sirotsky.

Em geral, o governo evita ações diretas do Estado contra jornalistas e opta por processos individuais, para evitar maiores constrangimentos. Contudo, até o primeiro escalão petista já se acostumou com a fama de governo que mais processou jornalistas na história gaúcha. ‘A liberdade de imprensa tem certos limites’, afirma o jornalista Jorge Correa, dirigente petista, ex-presidente do Sindicato da categoria e repórter do Zero Hora há quinze anos.

De longe o mais processado, o colunista Barrionuevo, que recentemente comparou, em sua seção, um secretário de Dutra a Goebels – o ministro da propaganda nazista -, agora se diz perseguido. ‘Meu nome foi colocado em uma lista de jornalistas que não podem receber informação do governo. Como se não bastasse, me processar virou uma orientação: existe uma dezena de processos contra mim. O pessoal do Palácio é truculento’.

Ouvindo os comentários do articulista, impossível não perguntar: como se sustenta uma coluna diária de política, regularmente recheada de furos relacionados ao PT, se não existe a menor relação de fonte com o governo? A chave está no próprio partido, segundo Barrionuevo: ‘o que eu digo sobre o Palácio é um décimo do que o pessoal do Tarso me diz sobre o Olívio. Estou chegando à conclusão que o PT moderno é mais odiado pelo Palácio que eu’. A resposta do articulista joga luz sobre outro embate que ocorre nos bastidores da política gaúcha: a disputa fratricida entre os partidários do prefeito Tarso Genro e os dutristas. A rusga ganhou notoriedade nacional durante a realização do II Fórum Social Mundial, realizado em fevereiro deste ano, em Porto Alegre. O prefeito acusou o governador de adotar práticas stalinistas na condução da TV Educativa gaúcha, depois que sua intervenção na cerimônia de abertura foi simplesmente cortada da programação na edição.

Além de arranhar a imagem do partido, a declaração desencadeou uma avalanche de críticas sobre o trabalho da TVE. A oposição afirma que não tem vez na emissora. A RBS diz que a TVE preserva o governador e não cobre as crises estaduais. Os tarsistas se dizem preteridos.

A atuação do núcleo de imprensa da Palácio não desagradou apenas veículos e profissionais que trabalham para a família Sirotsky. Processos e ofensivas contra jornalistas de oposição ao governo se tornaram rotina, independente do veículo. Essa postura irritou até militantes petistas históricos do Sul. ‘O Olívio se relaciona mal com a imprensa. Ele não assimila as críticas’, afirma José Carlos Torves, presidente do Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Sul e dirigente do PT. Torves, que também costuma dizer que a RBS mente, foi o responsável por um movimento do Sindicato contra Guaracy Cunha, o Secretário de Comunicação do Estado e Denise Mantovani, a assessora de imprensa. Em meados do ano passado, um representante do Palácio telefonou para a redação da semanal IstoÉ , tentando interferir em uma matéria sobre a CPI do Jogo do Bicho, um dos calcanhares de Aquiles da administração Dutra. Segundo Guaracy e Denise, o repórter responsável pela pauta, Luis Milman não estaria qualificado para a matéria, uma vez que ele faz parte do Movimento de Justiça e Direitos Humanos, opositor do governo. Os argumentos do Palácio não foram suficientes para evitar uma advertência pública por parte da Comissão de Ética do Sindicato. Vale lembrar que o Sindicato é dirigido pela corrente PT Amplo, do prefeito Tarso Genro.

Outro caso polêmico relacionado à imprensa local e o governo foi prota-gonizado pelo jornalista Helio Gama. Durante o processo eleitoral de 1998, Gama, então diretor da sucursal da Gazeta Mercantil do Rio Grande do Sul, publicou um suplemento especial exaltando a capacidade do Estado, leia-se de Antônio Brito, em atrair grandes empresas para a região. O PT entrou com recurso na Justiça Eleitoral e conseguiu um parecer favorável. A edição foi apreendida.

Gama, no entanto, afirma que Du-tra não esqueceu do episódio e cortou todos os anúncios da Gazeta, que representavam o grosso do fatura-mento. ‘Fiquei constrangido com essa história. Me senti responsável pelo corte. A Gazeta começou a dar prejuízo e então resolvi sair por conta própria’. Gama deixou o jornal em 28 de fevereiro de 2000. Coincidência ou não, pouco tempo depois, um anúncio de página inteira do Banrisul (Banco do Estado do Rio Grande do Sul) foi publicado.

Relação delicada

Não é só na justiça onde se concentram as ações do governo relacionadas à Rede Brasil Sul. Uma das primeiras medidas de Dutra foi anunciar o fim do ‘monopólio da RBS’, na divisão das verbas destinadas à publicidade estatal. ‘Nós democratizamos a verba e nos recusamos a reforçar o monopólio dos veículos’ diz Felix Valente, coordenador de publicidade do governo. Ele afirma que a atitude não foi uma retaliação e sim uma tentativa de fortalecer pequenos veículos do interior, antes preteridos no planejamento de mídia do Piratini.

A medida desagradou a cúpula da emissora, que defendia um critério de investimento baseado nos índices de audiência. No governo anterior, o faturamento da RBS com publicidade do governo representava 2,5% do orçamento total do Grupo, uma vez que ela é responsável pelos maiores índices de circulação e Ibope. Na gestão Dutra, esse número caiu para 1%.

Depois das mudanças, reportagens e textos assinados por profissionais próximos ao partido começaram a circular pela Internet, especulando sobre uma séria crise financeira na Rede Brasil Sul, em função da reengenharia na divisão da verba publicitária. Os boatos foram desmentidos pela empresa: a parcela relativa à publicidade oficial é irrisória perto do fatu-ramento geral. A empresa fica com 60% da verba publicitária de todos os anunciantes privados do RS. O suficiente para manter-se independente das verbas estatais.

A nova regra, entretanto, colocou mais combustível relação entre a Rede e o governo estadual. Ao sentir que a tradicional campanha petista anti-RBS ganharia fôlego, o Grupo tratou de tomar algumas providências para defender sua credibilidade. O primeiro passo foi contratar como colunista da casa ninguém menos que Lula, o eterno presidenciável do PT. Com sua assinatura em 2 mil toques semanais, ficaria difícil para os ativistas falar em parcialidade. O segundo foi lançar uma campanha ousada de publicidade, onde expoentes de esquerda do estado, entre líderes estudantis e sindicais, apareciam criticando de forma entusiasmada os veículos da família Sirotsky. O mote era: ‘Existem as mais diversas opiniões. Um jornal deve abrir espaço para todas’. Durante os três anos de administração petista, a RBS não deu trégua. Tudo que pudesse significar um arranhão na imagem do governo ganhava notoriedade instantânea. O maior trunfo da Rede foi uma CPI instalada na Assembléia Legislativa, dominada pela oposição, com o intuito de questionar a atuação do governo na área da segurança. Não havia em pauta qualquer denúncia de corrup-ção ou improbidade. O que se questionava, entre outros pontos, era se faltavam soldados na PM ou se o Instituto Geral de Perícia estava deixando de receber investimentos.

Nos noticiários de TV e jornais da RBS, as reportagens sobre a CPI vinham invariavelmente acompanhadas de cenas de violência urbana ou de histórias dramáticas de vítimas. O ponto alto da crise, entretanto, se deu quando o jornal Diário Gaúcho, o braço popular da Rede, denunciou o envolvimento de policiais e deputados com o jogo do bicho. O ‘furo’ ganhou contornos dramáticos quando o ex-tesoureiro do PT no estado, Jairo Carneiro – expulso do partido por suspeita de desvio de recursos – ligou para a redação para fazer uma denúncia grave. Ele afirmava para o editor do jornal que um consórcio de bicheiros teria doado R$ 600 mil para a campanha de Olívio Dutra, através de uma entidade chamada Clube da Cidadania. Desnecessário dizer que a RBS colocou o assunto no alto da página e no horário nobre.

O caso ‘Carneiro’ acabou na Assembléia Legislativa. A oposição não perdeu tempo e deu uma carona para o ex-tesoureiro na CPI da Segurança Pública. ‘A CPI mudou completamente de rumo. Atropelou o regimento, criou fatos políticos e deixou de abordar a segurança pública’, afirma Denise Mantovani, assessora de imprensa do Governador Olívio Dutra.

A cúpula da RBS acha que as reclamações petistas não passam de teoria conspiratória do núcleo Piratini. E defende a sua cobertura. ‘Eu não estou aqui para sacanear com ninguém. Mais de 300 pessoas trabalham no Telejornalismo da RBS, duvido que alguém te diga: vamos sacanear o governo’, afirma Rui Costa Jr, diretor de jornalismo da RBS TV.

Com as novas denúncias, o episódio ganhou manchetes nacionais, merecendo até uma série de reportagens no Jornal Nacional. O lance mais inusitado do episódio do jogo do bicho ocorreu quando o presidente do Clube da Cidadania, Diógenes de Oliveira, foi convocado para depor. Ele tentou virar o jogo e apresentou uma série de documentos tentando provar que a RBS possui empresas em paraísos fiscais e que estaria em vias de quebrar financeiramente. Foi o suficiente para o PT lançar mais uma leva de adesivos e bandeiras com o slogam: ‘RBS lava e leva para Cayman’. O desenlace da crise com o jogo do bicho chega a ser cômico. O depoimento de Carneiro era aguardado pela oposição e pela RBS como uma bomba que feriria de morte a administração Dutra. Mas, para surpresa geral, quando chegou ao plenário, em frente às câmeras e ao vivo para todo o Rio Grande, o ex-tesoureiro simplesmente desmentiu tudo, dizendo que inventou a história para se vingar do partido que o expulsou. A CPI da Segurança Pública segue até hoje como uma das principais atividades da Assembléia. Segue, também, como uma das pautas preferidas dos noticiários da RBS. Já o caso do bicho esfriou. Principalmente depois que o ministério Público Estadual arquivou a denúncia por ausência de provas.

Com a proximidade da eleição estadual, a guerra entre o primeiro e o quarto poder do Rio Grande do Sul deve ganhar novo ímpeto. Dessa vez, entretanto, os dois lados entram no pleito mais calejados. Afinal, 14 anos é tempo suficiente para a mídia e o poder propriamente dito se adaptarem a um fator inerente a qualquer democracia saudável: a dialética.

Quando o ex-repórter Antônio Brito relembra seus quatro anos como governador do Rio Grande do Sul, ele faz questão de frisar que mantinha um ótimo relacionamento com a imprensa. Uma prova disso seria o fato de ele ter se recusado a processar seus ex-colegas repórteres quando passou para o ouro lado do balcão. Apesar da fama auto-proclamada , Brito é autor de um processo inusitado e inédito na história do jornalismo brasileiro. Ele pede indenização ao segundo maior grupo de comunicação, o Caldas Jr, do qual faz parte o jornal Correio do Povo, a Rádio e a TV Guaíba, por não aparecer como objeto de pauta. Isso mesmo. Enquanto a maioria dos governantes vai à justiça reclamar de injúria, calúnia e difamação, Brito pede para voltar a ser notícia.

O veto teria sido ordenado quando Brito ainda era governador, durante um dos episódios mais polêmicos de sua administração. Em 1997, o Governo do Estado iniciou um processo de desestatização, anunciando que iria vender a Companhia Riograndense de Telecomunicações. Entre os principais consórcios que se apresentaram para disputar a licitação, estavam um encabeçado pela RBS e outro pelo Grupo Caldas Jr.

A família Sirotsky foi a vencedora, o que causou a ira de Renato Ribeiro, dono da Caldas Jr. Segundo consta no processo, esse seria o motivo de um veto a seu nome que dura até hoje. ‘O jornal Correio do Povo, principal veículo da requerida, a Rádio Gaúcha e a TV Guaíba, controlados pelas empresas Rés, passaram a, sistemática e deliberadamente, omitir o nome do peticionário de todas as notícias. O Autor do presente simplesmente sumiu do noticiário’, diz o processo. Questionado sobre o veto, os representantes do Grupo são diretos: ‘Nada a declarar’. O ex-governador que o diga. (PPV)”

Observatorio da Imprensa – Materias – 8/5/2002

https://fichacorrida.wordpress.com/2016/09/22/rbs-e-as-origens-do-dio/

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